Encontro de Filosofia reúne mais de 2 mil pesquisadores em encontro na segunda-feira

Mais de 2,5 mil pesquisadores e professores de Filosofia chegarão à capital do Espírito Santo na segunda-feira (22/10) para participar do XVIII Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia. O evento acontece até o dia 26/10 no Campus Goiabeira da Universidade Federal do Espírito Santo. A 23ª edição é a maior da associação, até hoje, e é marcada pela pluralidade de trabalhos em sua programação. O encontro reúne mais de 2,2 mil apresentações de pesquisa nas mais diversas áreas filosóficas, 13 minicursos, três mesas redondas, além de cinco conferências e lançamento de quase 50 livros. Entre os conferencistas, estão importantes pesquisadoras de filosofia no cenário internacional como Linda Alcoff, John Greco, José Mourinho e Bárbara Cassin. Também acontece, dentro da programação, o 4º encontro Anpof – Ensino Médio.

O evento é realizado em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo. Esta é a ocasião em que as pesquisas filosóficas que vem sendo desenvolvidas no Brasil, além de estudos e experiências de ensino são apresentadas e discutidas. As pesquisas serão apresentadas ao longo de quatro dias em 69 distintos grupos de trabalho e 27 sessões temáticas.

Para o presidente da Anpof, Adriano Correia, isto reflete a pluralidade da produção filosófica hoje no Brasil, que contrapõe a campanha difamatória enfrentada pela área recentemente. “A magnitude e diversidade de temas e problemas do evento é extraordinária. Isto representa uma oposição ao discurso que busca identificar na área uma fala doutrinária e de uma perspectiva única e dogmática”, comenta Correia. Para ele, a diversidade de temas e de problemas é uma conquista extraordinária. “É isto que o evento consolida: expansão, vitalidade e integração nos diversos níveis de estudo da filosofia”, afirma.

O evento também acolhe espaços de discussão acerca de importantes temas enfrentados na atualidade. De terça a quinta-feira, na parte noturna, o evento promoverá mesas-redondas que debaterão a filosofia, a universidade e a crise brasileira, o pensamento brasileiro e a presença das mulheres na filosofia no Brasil. Também serão homenageadas mulheres filósofas, entre elas Sueli Carneiro, Marilena Chauí e Jean Marie Gagnebin.

Crise, educação e filosofia

A despeito das dificuldades enfrentadas nos últimos anos pelas universidades brasileiras, sobretudo pelas humanidades, no que tange ao financiamento, a Filosofia tem se consolidado nos últimos anos. É o que avalia o presidente da Anpof ao relembrar que foram aprovados pela Capes, recentemente, quatro novos cursos de mestrado e seis de doutorado. De acordo com Correia, a expectativa era apenas de se consolidar os programas já existentes, de forma que essa aprovação se apresenta como um alento. “Ela nos mostra como a Filosofia se estabeleceu como uma área muito vigorosa na pós-graduação e tem conseguido sobreviver aos percalços que vivemos hoje na universidade”, diz o professor.

Adriano também destaca como esta aprovação expressa a regionalização da pós-graduação em Filosofia no Brasil. Entre os cursos aprovados, um deles é de doutorado em Sergipe e de mestrado em Rondônia, o segundo da região Norte. “Isto fortalece uma concepção regionalizada e descentralizada de pós-graduação que pensa o Brasil como um todo, e não como aquela centrada em centros de excelência”, comenta.

O sub-financiamento na área das humanidades, contudo, não é o único problema enfrentado hoje pela Filosofia. O presidente destaca a campanha difamatória que acontece hoje no Brasil, interessada em desqualificar os estudos de humanidades. “A Filosofia tem hoje um triste protagonismo, sendo mencionada quase sempre negativamente. Como se a formação cultural e integral do indivíduo pudesse se esgotar no âmbito da formação para mercado de trabalho e como se a filosofia não fosse importante para aprendizado de outras áreas, inclusive para o trabalho. Ignoram a importância do sujeito compreender sua própria época, refletir, deliberar”, relata o professor.

Segundo Correia, estes desafios devem tornar-se mais agudos ainda. “Viveremos um período muito difícil em que teremos de fazer um enfrentamento, como há muito tempo não tínhamos que fazer. Cenário não é positivo, a não ser na própria área, que apresenta coesão interna, articulação, intercâmbio e cooperação”, indica.

Para o presidente, a integração e fortalecimento dos programas são ainda mais necessários num contexto político como este. “É preciso dar visibilidade às pesquisas, à natureza e forma das experiências de ensino no ensino médio, travar pela batalha do financiamento e presença da filosofia no ensino básico”, indica Correia.

O encontro

Serão oferecidos treze minicursos, que tem como temática desde temas clássicos da Filosofia como “Platão Político”, a temas ligados ao feminismo contemporâneo e pós-verdade. Mais de 2 mil pesquisas serão apresentadas em 69 grupos de trabalho e 27 sessões temáticas. Todas as noites haverá conferências que acontecem no período noturno e são abertas à comunidade.

O responsável pela conferência de abertura na noite do dia 22/10, às 19h45, é Oswaldo Giacóia (Unicamp). Ele falará sobre “Avatares do ideal ascético: os comediantes e o resto”. Na terça-feira, o encontro recebe seus primeiros convidados internacionais para falar à comunidade filosófica a partir das 18h30. José Meirinhos, da Universidade do Porto, fará uma conferência sobre “O fim da sabedoria e a ordenação das ciências, entre a Idade Moderna e a Idade Média” e John Greco, da Saint Louis University, falará sobre “Humildade intelectual e epistemologia contemporânea”.

A noite de terça-feira será encerrada com uma homenagem às filósofas brasileiras que será seguida de uma mesa plenária que discutirá a presença das mulheres na filosofia.

A conferência de quarta-feira começa às 18:15 com Bárbara Cassin, da CNRS/Académie française, que falará sobre “O não-traduzível como método?”. Em seguida, haverá uma mesa redonda para discutir o pensamento brasileiro. Ela terá como debatedores José Crisóstomo (UFBA), Ivan Domingues (UFMG) e Paulo Margutti (FAJE/UFMG).

A responsável pela última conferência da programação da 23ª edição do encontro é a panamenha Linda Alcoff (CUNY), cuja fala tem como título “Da epistemologia feminista a epistemologia decolonial feminista”. Por fim, haverá uma mesa redonda em que se discutirá a filosofia, a universidade e a crise brasileira. Participam João Carlos Salles (ex-presidente da Anpof, reitor da UFBA, presidente da Sociedade Interamericana de Filosofia e vice-presidente da Andifes), Nythamar Oliveira (Professor na PUC-RS e representante da área de filosofia na Capes), Neyval Costa Reis Junior (Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da UFES, também representando o reitor, que é presidente da ANDIFES).

O encontro também elegerá, na quinta-feira, a próxima presidência e diretoria que estará na gestão da Associação nos próximos dois anos.

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