Kleber Galveas
Cotidiano

NA DÚVIDA, DESPERTE!

Não há dúvida de que grande quantidade de minério de ferro (hematita) é lançada sobre nós, todos os dias, pelas siderúrgicas localizadas em Tubarão.

Para prová-lo, faça a seguinte experiência: recolha a poeira, em qualquer lugar da sua casa. Coloque a poeira sobre uma folha de papel. Sob essa folha passe um ímã. Como o ímã atrai o ferro, a poeira recolhida dança, no compasso do imã, denunciando a presença de ferro no pó preto.

Ferro que, a todo instante, é sugado por nossa respiração. Penetram mais fundo, em nossos pulmões, as partículas menores e os gazes que as acompanham. Gases e aerodispersóides sólidos microscópicos não são percebidos por cidadãos desamparados; entretanto as partículas maiores denunciam a fonte de emissão e 40 anos de fracasso para conter essa poluição. Segundo cálculo da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa, a partir de dados fornecidos pela Vale, são 23 toneladas que escapam da empresa, todos os dias.

Não há dúvida (para quem consulta médico, ou o site do Ministério da Saúde - Comitê Assessor em Doenças Pulmonares Ambientais e Ocupacionais) de que inspirar pó de hematita é prejudicial à saúde. A doença característica é a silicossiderose, que não tem cura e causa morte por insuficiência respiratória. Nesse site e em outros voltados para a saúde pública, fica claro que respirar ar com minério de ferro pode ocasionar doenças como tuberculose, inflamações crônicas, alergias e neoplasias.

Durante as audiências públicas na Assembleia Legislativa, a parceria do governo (Iema) com a empresa poluidora (na impossibilidade de continuar contestando o que o imã revela) exibiu, como solução, procedimento que já se mostrou impróprio: espargir água sobre o minério durante o embarque. A umidade deprecia o produto, ampliando a lista de fracassos das empresas, no controle da poluição. Atenção deve ser dada ao foco principal das emanações, que são as chaminés gigantescas das siderúrgicas.

O governo estadual se posicionou sobre a poluição aérea, quando o governador Paulo Hartung, nomeou Secretária de Meio Ambiente a principal executiva da empresa que fez o Projeto de Impacto Ambiental, indispensável para a obtenção da licença de duplicação das siderúrgicas. É de se observar que as poluidoras contribuíram com dinheiro para a campanha eleitoral do governador. Assim a parcialidade do Iema (diversas vezes criticada pela Presidente da Comissão de Meio Ambiente da AL, gravadas pela TV Assembleia, durante as audiências) revela a predisposição subserviente do governo estadual.

Do Poder Público (executivo, legislativo e judiciário) pedimos atenção para um problema grave que atinge a todos. Não é opcional como o cigarro (fuma quem quer), combate ao qual se dedicam agressivamente. As quatro últimas audiências públicas na AL aconteceram com a presença de apenas dois deputados estaduais e nenhum federal. Secretarias de saúde (estaduais e municipais) estiveram ausentes. Partidos políticos não enviaram representantes.

A inexpressiva presença da sociedade civil nesse debate e a ausência de setores organizados como universidades, associações, sindicatos, conselhos e federações ligadas à saúde não se justificam. A pretensão de lideranças comunitárias em negociar a saúde pública em troca de benefícios para suas comunidades foi reprovada pela Presidente da Comissão de Meio Ambiente da AL.

Na hora em que existe a possibilidade (Usina 8) de a poluição aérea ganhar o dobro da dimensão de hoje, esperamos, sem passeatas, faixas, paralisações, bloqueios ou bombas, mas atendendo ao chamado da ética profissional e da responsabilidade social, que nossa mídia e nossos candidatos despertem a tempo de provocar a dúvida. E você, VOTE LIMPO!

Kleber Galvêas – pintor. Tel.: 3244 7115 www.galveas.com ateliê@galveas.com 07/06
OBSERVAÇÂO: Este texto, embora escrito em 2006, se mostra atual. “Demolindo a Identidade Capixaba”, pág. 99.
ILUSTRAÇÃO: Página 25, Jornal A Gazeta, 03-05-2018
Não existe arte sem público. Favor compartilhar com amigos. Grato, Kleber

:)