Kleber Galveas
Cotidiano

TRADUÇÃO CULTURAL

Assistindo em DVD, filme americano dublado e legendado em português, vi, em uma cena, a mãe entregando sorvete à filha e dizendo: “Comendo e andando“, mas li na legenda, “Tomando e andando“. A ação (comer/tomar) foi compreendida nas duas traduções, entretanto mostrou tradutores de níveis diferentes. Nesta cena, filmada em Salamanca, o áudio original está em espanhol, “Comiendo y andando“; a legenda original em inglês, “Lets eat and walk“. Para brasileiros a tradução ficou melhor na legenda, passou por um “filtro cultural“; aqui falamos “tomar“ e não “comer“ sorvete. Este cuidado distingue bons profissionais.

Lendo textos, traduzidos do inglês, tive problemas com equinócio e solstício. O tradutor descuidou do leitor brasileiro situado no hemisfério sul, portanto, num ponto de observação diametralmente oposto ao do escritor, situado no hemisfério norte.

Em Lisboa (1967) a manchete de um jornal anunciava a visita da Rainha Izabel. Sem entender, li a reportagem e encontrei pistas. Descobri que a visitante era a Rainha Elizabeth da Inglaterra. Fiquei sabendo que portugueses traduzem nomes próprios e “atualizam“ sobrenomes. Meus parentes portugueses são Galveias. O Galvêas (arcaico) só foi preservado no Brasil. Meu bisavô veio para cá antes da reforma da língua, dessa armadilha cultural para tradutores incautos.

Quando da queda das Torres Gêmeas (NY, 2001) a mídia estava ocupada com um pó branco que, espalhado por cartas, contaminava pessoas. A “Veja“ fez uma capa preta com apenas a palavra “Antrax“. Fiquei perdido, até perceber que se tratava de um velho conhecido, o Antraz (causador de tumores grandes com vários “olhos“) muito comum na minha juventude e palavra presente em todos os dicionários da nossa língua.

Jornal capixaba ao insistir em publicar “wind fences“ (cercas para vento, fabricadas no Brasil, instaladas recentemente no porto de Tubarão) só copiou nome “bonito“? Os deslizes, apontados acima, superamos sem problemas. Outros, exigem mais atenção...

Com a eleição de Obama, a mídia nacional está levando uma barriga (notícia falsa) tão grande, que pode parir um monstro, por aqui. Negro nos EUA é categoria (casta?) definida objetivamente em lei. Em muitos Estados, casamentos inter-raciais eram legalmente proibidos, até pouco tempo. Se o filho nascesse louro e com olhos azuis, era registrado como negro. A lei determinava o número exato de gerações necessárias para “limpar“ o sangue (octoroon). Aqui, isso nunca existiu, Anchieta exigiu a legalização dessas uniões na formação do Brasil. Nossa cultura classifica “no olho“, com sensibilidade de artista: negro, moreno, marrom, sapoti, pardo, branco, branquelo, vela...

Estatísticas de 1878 revelam que o número de pardos já superava a soma de negros e brancos, em todas as cidades do ES. Imigrantes alemães e italianos, que aqui chegaram (séc. XIX) logo miscigenaram. Isto não aconteceu em outro lugar com as mesmas nacionalidades. Brasileiros são paradigma neste assunto.
A repressão, durante a ditadura militar, esteve mais dura na Argentina do que no Brasil. Uma das razões, foi que aqui o povo forma o exército, lá era uma casta fechada, onde filhos de militares herdavam privilégios oficiais, e suas atividades sociais eram exclusivas, viviam quase à parte.

Divisão maniqueísta (preto - branco) polariza, oportuniza e exacerba conflitos. Reduz a liberdade de todos e a integração.

Se Obama é negro nos EUA, aqui a tradução cultural é pardo, mulato ou moreno. Nossos antropólogos mais jovens, com diplomas e cabeça feita nos Estados Unidos cochilam, enquanto a desatenção de tradutores reproduz problema importado.

Kleber Galvêas, pintor Tel. (27)3244 7115 www.galveas.com janeiro/2009 ateliegalveas@gmail.com 
ILUSTRAÇÃO: A exposição “Octógono Florido“ segue até dia 17 de dezembro. Para informações clique aqui: http://www.galveas.com/ expooctogonosfloridos.htm

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